Finanças e Carreira

Investir cedo ou investir em você? O que faz mais sentido quando o salário ainda é baixo

Começar a investir cedo é importante, mas quanto vale sacrificar no início da carreira?

Cláuser Mazuim da Cruz
@

“Comece a investir o quanto antes.”

Ilustração comparando investir cedo com investir no desenvolvimento da carreira

É difícil discordar dessa frase. Quanto mais tempo o dinheiro permanece investido, mais tempo existe para os retornos se acumularem. Além disso, começar cedo ajuda a criar o hábito de poupar antes que o padrão de vida cresça junto com o salário.

Mas essa recomendação, quando repetida sem contexto, deixa uma pergunta importante de fora:

Quanto vale a pena sacrificar hoje para investir, especialmente quando sua renda ainda é baixa e sua carreira tem muito espaço para crescer?

Para alguém no início da carreira - e isso é particularmente relevante para desenvolvedores - R$ 500 podem ter destinos muito diferentes. Eles podem virar um aporte. Podem pagar parte de um curso, melhorar o inglês, comprar tempo para estudar ou simplesmente financiar uma experiência que faz a vida valer mais a pena.

Então talvez a pergunta mais útil não seja “investir cedo ou aproveitar a vida?”, mas:

Como dividir dinheiro e tempo hoje para construir uma vida melhor no longo prazo sem desperdiçar o presente?

A resposta fica mais interessante quando olhamos para o que estudos sobre poupança, carreira e comportamento de investidores realmente mostram.

Resumo rápido:


Começar cedo importa - mas isso não significa investir o máximo possível

O argumento mais comum para começar cedo é o efeito dos juros compostos. Ele é válido: manter dinheiro investido por mais tempo aumenta o potencial de crescimento do patrimônio.

O problema aparece quando transformamos uma verdade matemática em uma regra de vida.

Um trabalhador de 20 anos ganhando R$ 3 mil por mês está em uma situação muito diferente de alguém de 35 anos ganhando R$ 40 mil. Para o primeiro, economizar mais R$ 500 pode representar abrir mão de uma parcela importante do consumo atual. Para o segundo, o mesmo aporte adicional pode não alterar sua qualidade de vida de forma perceptível.

Economistas estudam esse problema por meio de modelos de ciclo de vida, nos quais as pessoas tentam distribuir consumo e poupança ao longo de diferentes fases da vida.

Scott, Shoven, Slavov e Watson analisaram como a poupança para aposentadoria se encaixa nesse tipo de modelo. O trabalho mostra que, em determinadas condições - especialmente para jovens com renda atual relativamente baixa e forte crescimento esperado de renda - a maior taxa de poupança possível hoje não é necessariamente a melhor decisão em todas as fases da vida.1

O estudo trata de poupança previdenciária no contexto americano, portanto serve como contraponto conceitual, não como regra prática.

Isso sugere uma distinção que vale manter ao longo deste artigo: Começar cedo pode ser excelente. Sacrificar excessivamente o presente para maximizar aportes é uma decisão diferente.


No começo da carreira, seu maior patrimônio provavelmente não está na corretora

Imagine dois patrimônios:

No início da vida profissional, o primeiro normalmente é pequeno. O segundo pode ser enorme. Isso é especialmente relevante em tecnologia.

David Deming e Kadeem Noray estudaram carreiras em áreas intensivas em tecnologia e encontraram um fenômeno importante: os conhecimentos exigidos nessas ocupações mudam rapidamente, e a obsolescência de habilidades pode reduzir o benefício econômico da experiência acumulada. Em outras palavras, simplesmente passar anos trabalhando não garante que seu valor de mercado continuará crescendo; continuar aprendendo importa.2

Para um desenvolvedor, isso torna cursos, inglês, arquitetura de software, cloud, IA, comunicação, liderança técnica ou preparação para entrevistas potenciais investimentos - mesmo que eles nunca apareçam em uma corretora.

Considere um exemplo simplificado:

Você tem R$ 10 mil investidos e resolve dedicar dezenas de horas a selecionar ações. Suponha, de forma bastante otimista, que esse esforço produza 2 pontos percentuais adicionais de retorno naquele ano. O ganho adicional seria de aproximadamente R$ 200.

Agora suponha que parte desse mesmo tempo seja usada para desenvolver uma habilidade que, algum tempo depois, contribua para um aumento de apenas R$ 500 por mês na sua remuneração. Isso representa R$ 6 mil adicionais por ano.

Naturalmente, estudar não garante aumento salarial e obter 2% de retorno adicional também está longe de ser garantido. O objetivo do exemplo é outro: mostrar a diferença de escala.

Quando o patrimônio financeiro ainda é pequeno, aumentar sua capacidade de gerar renda pode ter impacto muito maior do que tentar extrair alguns pontos percentuais adicionais de retorno da carteira.

E existe ainda outro recurso limitado nessa equação: seu tempo.


Seu tempo também faz parte do retorno do investimento

Quando comparamos estratégias de investimento, normalmente observamos retorno, risco, impostos e taxas.

Mas quase nunca colocamos uma linha chamada horas da minha vida.

Kim, Maurer e Mitchell fizeram justamente isso em um estudo publicado no Journal of Financial Economics. O modelo dos autores incorpora os custos de tempo e dinheiro associados à gestão de investimentos ao longo da vida. Uma das ideias centrais é que o tempo gasto administrando ativamente uma carteira tem custo de oportunidade: ele poderia ter sido usado para trabalho, desenvolvimento de capital humano ou lazer.3

Isso muda novamente a forma de enxergar a questão. Se você passa cinco horas por semana:

essas cinco horas não são gratuitas.

Se você gosta de fazer isso, tudo bem. Analisar empresas pode ser um hobby tão legítimo quanto qualquer outro.

Mas, se o objetivo é maximizar sua situação financeira, o retorno do stock picking deveria ser comparado não somente ao retorno de um índice, mas também ao que você poderia conseguir fazendo outra coisa com esse tempo.

No início de uma carreira em tecnologia, essa comparação pode ser bastante desfavorável ao investimento ativo.


Por que então parece que investir é sinônimo de escolher ações?

Abra uma rede social e procure conteúdo sobre investimentos.

É muito mais provável encontrar:

do que:

“Compre regularmente uma carteira amplamente diversificada, mantenha os custos baixos e volte a estudar para sua carreira.”

Há também um incentivo de conteúdo: stock picking, previsões e notícias permitem produzir material novo continuamente.

Uma carteira simples e diversificada não exige cinquenta vídeos por ano. Já previsões, resultados trimestrais e novas teses de investimento oferecem um fluxo praticamente infinito de conteúdo.

Existe evidência de que incentivos de redes sociais podem amplificar justamente esse problema.

Kakhbod, Kazempour, Livdan e Schürhoff analisaram cerca de 29 mil usuários classificados como finfluencers no StockTwits, uma rede social focada em investimentos. No modelo principal do estudo, mais da metade foi classificada como “antiskilled”, isto é, associada a previsões com retorno anormal negativo. O estudo também encontrou uma relação desconfortável: usuários mais habilidosos tendiam a ter menos seguidores, enquanto maior atividade e visibilidade estavam relacionadas a públicos maiores.4

Extrapolar esse número para influenciadores brasileiros seria um erro: o estudo analisou outra plataforma, outro mercado e um modelo estatístico específico. Além disso, trata-se de um working/conference paper, portanto merece mais cautela do que trabalhos já consolidados em periódicos acadêmicos.

Mas ele oferece uma hipótese útil: aquilo que gera mais engajamento em uma rede social não é necessariamente aquilo que gera melhores decisões de investimento. Popularidade e habilidade financeira são coisas diferentes.


O pequeno investidor realmente consegue ganhar escolhendo ações?

Conseguir é possível, mas quão fácil é fazer isso de forma consistente depois de custos, erros e tempo gasto?

Esse problema também aparece entre investidores individuais. Barber e Odean analisaram mais de 66 mil contas e observaram que os investidores que negociavam com maior frequência apresentaram desempenho líquido inferior ao mercado no período analisado.5

É um estudo com dados dos anos 1990, quando custos de negociação eram muito diferentes dos atuais. Ainda assim, ele oferece uma evidência importante de que mais atividade na carteira não significa, por si só, melhor resultado.

O SPIVA (S&P Indices Versus Active) compara fundos de gestão ativa com seus respectivos índices. No relatório de encerramento de 2025, olhando um horizonte de dez anos no Brasil, ficaram abaixo dos benchmarks:

Isso não prova que gestão ativa nunca funciona. Em alguns anos e categorias, uma parcela relevante dos gestores supera o índice. O ponto é a persistência.

O SPIVA não mede diretamente o desempenho do investidor pessoa física, mas mostra quão difícil é obter uma vantagem persistente mesmo dentro de estruturas profissionais.

Se profissionais com equipes de análise, ferramentas, acesso a dados e uma carreira inteira dedicada ao mercado têm dificuldade para superar índices por longos períodos, vale perguntar qual vantagem competitiva o pequeno investidor possui ao tentar fazer a mesma coisa algumas horas depois do trabalho.


Há outro problema no stock picking: poucas ações explicam grande parte do resultado

Talvez o argumento mais interessante em favor da diversificação venha de Hendrik Bessembinder.

Em um estudo publicado no Journal of Financial Economics, ele analisou o histórico de ações americanas desde 1926 e encontrou uma distribuição extremamente desigual de resultados.

A maior parte das ações individuais apresentou retorno ao longo de sua existência inferior ao de Treasury Bills de um mês. Mais importante: aproximadamente 4% das empresas foram responsáveis por toda a criação líquida de riqueza do mercado acionário americano acima desses títulos de curto prazo.7

Isso ajuda a resolver um aparente paradoxo: Como o mercado acionário pode produzir excelentes resultados históricos se tantas ações individuais apresentam desempenho ruim? Porque algumas vencedoras extraordinárias puxam o resultado agregado para cima.

Para quem seleciona poucas empresas, isso cria um desafio: não basta evitar empresas ruins; você também precisa garantir que sua carteira contenha as poucas empresas que gerarão uma parcela enorme do retorno futuro.

O problema é que sabemos quem foram essas empresas depois que elas ficaram gigantes. Antes disso, a escolha é muito menos óbvia.

Ainda assim, é comum encontrar quem venda a impressão de que consegue identificar essas vencedoras antecipadamente.

Uma carteira amplamente diversificada não precisa adivinhar todas as vencedoras. Ela simplesmente aumenta a chance de possuí-las quando elas aparecem.


Então é só comprar ETF?

Não exatamente. Aqui existe outra simplificação perigosa.

ETF é um veículo de investimento, não uma estratégia.

Existem ETFs:

Trocar dez ações individuais por um ETF concentrado em vinte empresas de inteligência artificial não elimina necessariamente o problema de concentração.

A conclusão mais coerente com os estudos anteriores é mais específica:

Para quem não possui uma vantagem clara em seleção de ações e não quer transformar investimentos em uma segunda profissão, uma estratégia de baixo custo, baixo giro e ampla diversificação é um ponto de partida difícil de ignorar.

Por isso, ETFs de índices amplos são uma forma prática de implementar essa estratégia. Eles não garantem retorno positivo, não impedem quedas e não substituem a necessidade de entender risco. Mas permitem que o investidor participe do mercado sem precisar identificar antecipadamente quais serão as poucas grandes vencedoras.

E, talvez mais importante para um profissional no início da carreira, permitem recuperar um recurso escasso: tempo.


Mas e aproveitar a vida?

Até aqui falamos bastante sobre otimização. Existe o risco de levar essa lógica longe demais.

Dinheiro não é o objetivo final da vida. É um recurso que permite consumir, ter segurança, criar opções e fazer coisas que valorizamos com as pessoas que amamos.

A pesquisa acadêmica sobre bem-estar também oferece um lembrete útil. Em um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, Whillans e coautores encontraram, em amostras de diferentes países, uma associação entre gastar dinheiro em serviços que economizam tempo e maior satisfação com a vida. Em um experimento, participantes relataram maior bem-estar após uma compra destinada a economizar tempo do que após uma compra material de valor semelhante.8

O estudo trata especificamente de gastos que economizam tempo. Ele não demonstra, por exemplo, que viajar ou gastar com hobbies seja sempre melhor do que investir. Ainda assim, lembra que utilidade e bem-estar também fazem parte da decisão financeira. A conclusão aqui é mais modesta que “gastar é melhor que investir”: nem todo consumo é desperdício.

Usar parte do dinheiro para ganhar tempo, estar com pessoas importantes, praticar um hobby ou simplesmente tornar a rotina melhor pode produzir valor real, mesmo que esse valor não apareça na planilha de patrimônio.

O objetivo não deveria ser chegar aos 30 anos com o maior patrimônio possível a qualquer custo. Deveria ser construir uma trajetória sustentável em que o futuro melhora sem transformar o presente em um período de espera.


Talvez possamos pensar em dois tipos de efeito composto

Quando comecei a pensar neste artigo, a pergunta parecia ser:

Vale mais a pena investir cedo ou investir na carreira?

Depois de olhar os estudos, essa divisão parece artificial. Por analogia, podemos pensar em pelo menos dois mecanismos de acumulação acontecendo ao mesmo tempo:

1. O retorno composto do seu dinheiro

Você investe, obtém retorno, reinveste e dá tempo ao patrimônio.

Quanto mais cedo esse processo começa, melhor.

2. O retorno composto da sua capacidade de gerar dinheiro

Você aprende algo, consegue um trabalho melhor, passa a lidar com problemas mais complexos, aprende novamente e aumenta o valor das próximas oportunidades.

Um aumento de renda aos 20 anos não afeta apenas o salário daquele ano. Ele pode alterar a base sobre a qual os próximos aumentos, bônus e aportes acontecerão.

Para um jovem profissional com pouco patrimônio, esse segundo mecanismo pode ser tão importante - ou mais importante - que tentar maximizar a rentabilidade da carteira.

E eles não são concorrentes: uma renda maior permite aportes maiores.


O que eu faria no início da carreira

Não existe uma fórmula acadêmica que diga “invista exatamente X% e gaste Y% em cursos”. A situação de cada pessoa é diferente.

Mas os estudos discutidos acima sugerem uma estratégia razoável para reflexão:

1. Construa segurança primeiro

Dívidas caras e ausência total de reserva podem transformar qualquer imprevisto em um problema financeiro maior. Antes de buscar a carteira perfeita, vale construir uma base mínima de segurança.

2. Comece a investir, mesmo que o valor seja pequeno

O objetivo inicial pode ser menos “ficar rico com juros compostos” e mais criar o sistema. Automatizar um aporte sustentável ensina como você reage a altas, quedas e períodos ruins sem exigir que sua vida gire em torno do mercado.

3. Reserve dinheiro e tempo para aumentar seu capital humano

No início da carreira, aprender algo que aumenta sua empregabilidade pode ter retorno extraordinário.

Isso não significa comprar cursos aleatoriamente. Significa identificar gargalos concretos: inglês, fundamentos técnicos, comunicação, especialização ou habilidades necessárias para a próxima posição.

4. Não trate lazer como falha financeira

Determine conscientemente quanto quer gastar com coisas que melhoram sua vida hoje. O problema não é consumir. É gastar automaticamente ou criando dívidas, sem perceber se aquele consumo realmente importa para você.

5. Simplifique os investimentos até existir uma boa razão para complicá-los

Se você não tem tempo, interesse ou vantagem competitiva para analisar empresas, uma estratégia amplamente diversificada e de baixo custo pode ser perfeitamente racional, mesmo parecendo menos sedutora e empolgante do que discutir a ação do momento.

Você pode aprender mais sobre investimentos sem transformar sua carteira em um laboratório.

6. Aumente os aportes quando sua renda aumentar

Talvez este seja o ponto que une todo o argumento. Em vez de tentar extrair uma taxa de poupança enorme de um salário pequeno, você pode:

Assim, o patrimônio cresce por duas vias: mais tempo investido e mais capacidade de aportar.


Conclusão

Começar a investir cedo continua sendo uma excelente ideia.

Mas “começar cedo” não precisa significar viver no limite para maximizar cada aporte, nem transformar stock picking em uma segunda profissão.

Quando o patrimônio ainda é pequeno, talvez a pergunta mais valiosa não seja: “Qual ação vai render mais?”

Talvez seja: “Qual é o melhor uso do próximo real e da próxima hora para melhorar minha vida ao longo das próximas décadas?”

Às vezes a resposta será investir. Às vezes será estudar. Às vezes será formar uma reserva para uma compra futura em vez de financiá-la.

E às vezes será simplesmente usar parte do dinheiro para aproveitar o presente ou descansar.

A estratégia mais inteligente não é escolher entre viver agora e construir o futuro, mas construir um sistema no qual os dois aconteçam ao mesmo tempo.


Aviso: este artigo tem caráter educacional e não constitui recomendação individual de investimento.

Footnotes

  1. Scott, J. S., Shoven, J. B., Slavov, S. N. & Watson, J. G. (2022). Is automatic enrollment consistent with a life cycle model? Economic Inquiry, 60(1), 9–20. https://doi.org/10.1111/ecin.13040

  2. Deming, D. J. & Noray, K. (2020). Earnings Dynamics, Changing Job Skills, and STEM Careers. The Quarterly Journal of Economics, 135(4), 1965–2005. https://doi.org/10.1093/qje/qjaa021

  3. Kim, H. H., Maurer, R. & Mitchell, O. S. (2016). Time is money: Rational life cycle inertia and the delegation of investment management. Journal of Financial Economics, 121(2), 427–447. https://doi.org/10.1016/j.jfineco.2016.03.008

  4. Kakhbod, A., Kazempour, S. M., Livdan, D. & Schürhoff, N. Finfluencers. Working/conference paper apresentado no programa da American Economic Association. https://www.aeaweb.org/conference/2025/program/paper/i3ry3n4t

  5. Barber, B. M. & Odean, T. (2000). Trading Is Hazardous to Your Wealth: The Common Stock Investment Performance of Individual Investors. The Journal of Finance, 55(2), 773–806. https://doi.org/10.1111/0022-1082.00226

  6. S&P Dow Jones Indices. SPIVA Latin America Year-End 2025. https://www.spglobal.com/spdji/en/spiva/article/spiva-latin-america/

  7. Bessembinder, H. (2018). Do stocks outperform Treasury bills? Journal of Financial Economics, 129(3), 440–457. https://doi.org/10.1016/j.jfineco.2018.06.004

  8. Whillans, A. V. et al. (2017). Buying time promotes happiness. Proceedings of the National Academy of Sciences, 114(32), 8523–8527. https://doi.org/10.1073/pnas.1706541114